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O conceito Tanaico de “Inferno”

Muitas pessoas acreditam na existência de um local onde o fogo nunca cessa e a dor e o sofrimento nunca acabam. Isto é repetido muitas vezes e para muitos este é quase que um foco em suas doutrinas. A realidade é que muitos utilizam do inferno como uma ferramenta para manipular as pessoas, o que podemos também apelidar de “inquisição espiritual”. Através do medo de ir pro inferno, muitos lideres religiosos doutrinam os seus seguidores, e muitos não questionam por medo do inferno.

Mas então fica a pergunta, o que o Tanakh fala a respeito do inferno?

Definição

No Hebraico (שְׁאוֹל – she’ol) vem traduzida como inferno, porém, esta não é a única forma de se traduzir. Vamos ver mais adiante que she’ol pode ter outros significados, e que trocar a palavra “inferno” pelas demais alternativas trará muito mais sentido ao contexto.

Analisando o Tanakh

A primeira referencia encontrada em todo o Tanakh desta palavra em sua raiz é Devãrim 32.22.

"Porque um fogo se acendeu na minha ira, e arderá até ao mais profundo do inferno[שְׁא֣וֹל - she’ol], e consumirá a terra com a sua colheita, e abrasará os fundamentos dos montes."
Devãrim/Deuteronômio 32.22

Vamos analisar o texto acima da seguinte forma. Observe que pelo contexto, YHWH está enfurecido com o Povo aqui na terra e ele vem com o seu fogo consumir a nação, ou seja, aqui mesmo na terra dos viventes. Agora a pergunta: Por que YHWH vai lançar fogo aqui na terra e ainda lá no inferno onde já tem fogo até demais? Afinal, a ira de YHWH se acendeu contra os viventes que pecaram, logo, não faz o menor sentido YHWH dizer que vai lançar fogo naqueles que estão no “inferno” por causa dos pecados dos que estão vivos.

Antes de entendermos do que se trata o “she’ol” de Devãrim, vamos ver um outro pãsuq (versículo) onde podemos ver a mesma palavra (she’ol) porém, com uma tradução alternativa.

"YHWH é o que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura[שְׁא֖וֹל - she’ol] e faz tornar a subir dela."
Shemu’el Ãleph/1 Samuel 2.6

Observe que she’ol aqui foi traduzido como “sepultura”, ou também poderia ser “cova”. Esta tradução sim faz todo o sentido, e é nesta forma de traduzir que vamos focar a nossa análise. O contexto é claro, e não deixa dúvidas, pois se o redator está falando a respeito de vida e morte, logo, descer ao she’ol é descer à sepultura, e voltar do she’ol é voltar da sepultura.

Uma vez que podemos analisar uma alternativa para traduzir “she’ol”, será que esta tradução vai se adequar ao texto que já estávamos vendo anteriormente, que é Devãrim 32.22?

"Porque um fogo se acendeu na minha ira, e arderá até a mais profunda sepultura[שְׁא֣וֹל - she’ol], e consumirá a terra com a sua colheita, e abrasará os fundamentos dos montes."
Devãrim/Deuteronômio 32.22

Observe que todos os elementos que o redator está descrevendo estão no plano físico e material (colheita e montes), portanto, é muito mais sensato traduzir “she’ol” com uma tradução que descreva algo que também está no plano físico e material, que no caso é a sepultura. O que o redator quer descrever é que, a ira de YHWH é tão grande, que este “fogo” queimará todas as coisas, e não haverá para onde fugir, pois até mesmo abaixo da terra, o “fogo” irá consumir.

Conforme vimos, a palavra “sepultura” se adequo muito mais ao texto do que a palavra “inferno”, mas será que Shemu’el Ãleph é a única passagem que traduz “she’ol” por “sepultura”? Vamos analisar uma outra passagem que também traduz como “sepultura”.

"Mas agora não o tenhas por inculpável, pois és homem sábio, e bem saberás o que lhe hás de fazer para que faças com que as suas cãs desçam à sepultura[שְׁאֽוֹל - she’ol] com sangue."
Melãkhim alef/1 Reis 2.9

O contexto é claro e não deixa dúvidas de que “she’ol” é “sepultura”. O objetivo aqui não é trazer todas as passagens onde encontramos “she’ol” como “sepultura”, pois isto faria deste artigo um tanto extenso, mas apenas reforçar o conceito.

Também não tenho por objetivo retraduzir cada uma das passagens onde foi traduzido por “inferno”, pois isto também estenderia muito de forma desnecessária. Porém, vamos apenas reforçar trazendo aqui alguns pontos onde o compreendimento acaba ficando um pouco difícil para quem já está acostumado com esta idéia de “inferno”.

"Porque me cercaram as ondas de morte; as torrentes dos homens ímpios me assombraram. Cordas do inferno[שְׁא֖וֹל - she’ol] me cingiram; encontraram-me laços de morte."
Shemu’el beth/2 Samuel 22.5-6

Dãwidh/Davi era um homem justo, apesar de seu pecado, YHWH teve misericórdia dele e ele foi perdoado. E além do perdão, ele foi tido como um homem reto e integro perante YHWH. Se ele era reto e integro, por que as cordas do inferno o cingiram? Estaria ele sendo tragado para o inferno? Ou estaria ele sendo levado ao inferno por causa dos homens ímpios falado no pãsuq 5?

Observe que não faz o menor sentido interpretar “she’ol” como “inferno” e que fica muito melhor entender como “sepultura”.

"Porque me cercaram as ondas de morte (quem morre vai ser sepultado); as torrentes dos homens ímpios me assombraram (aqueles que o desejavam matar). Cordas da sepultura[שְׁא֖וֹל - she’ol] me cingiram; encontraram-me laços de morte."
Shemu’el beth/2 Samuel 22.5-6

Agora veja como faz todo o sentido, quando lemos o primeiro pãsuq (versículo) deste mesmo perek (capítulo).

"E Falou Dãwidh a YHWH as palavras deste cântico, no dia em que YHWH o livrou das mãos de todos os seus inimigos e das mãos de Shã’ul/Saul."
Shemu'el beth/2 Samuel 22.1

O primeiro pãsuq mata toda a charada ao mostrar que o contexto era de um homem que estava louvando a YHWH por ter sido liberto da mão do seus inimigos. Isto mostra claramente como o termo “she’ol” seria muito melhor traduzido como “sepultura” do que “inferno”.

Por fim, vamos analisar apenas mais um pãsuq onde também temos uma certa dificuldade quando estamos enraizados num conceito falho.

"As águas roubadas são doces, e o pão tomado às escondidas é agradável. Mas não sabem que ali estão os mortos; os seus convidados estão nas profundezas do inferno[שְׁא֣וֹל - she’ol]."
Mish'lê/Provérbios 9.17-18

Estes pesuqim (versículos) trazem um pouco de resistência daqueles que querem acreditar na existência do inferno. Mas para entendermos melhor esta passagem, precisamos adentrar um pouco mais no pensamento semita.

Em todo o Tanakh, não existe em lugar algum a descrição deste “inferno” como um lugar de fogo e enxofre, que haverá tormento eterno, etc. Veja bem, se você nunca ouviu falar que “she’ol” é um lugar de fogo e enxofre e tormento eterno, ao ver ali escrito “she’ol”, no que você vai pensar? Numa sepultura ou no inferno?

A dificuldade de interpretação do texto acima não está no texto em si, mas sim, num conceito pré-concebido, ao qual, quando removemos este conceito, tudo começa a fazer muito mais sentido.

Outro ponto em que temos que prestar atenção é que, no pensamento semita, a morte era um castigo. Vejamos a Torãh por exemplo.

"E aquele que blasfemar o nome de YHWH, certamente morrerá; toda a congregação certamente o apedrejará; assim o estrangeiro como o natural, blasfemando o nome do Senhor, será morto."
Wayiq’rã/Levítico 24.16

A morte não era apenas uma conseqüência do pecado, como também era um castigo vindo de YHWH.

"E os filhos de Aharon/Arão, Nãdhãv/Nadabe e Avihu/Abiú, tomaram cada um o seu incensário e puseram neles fogo, e colocaram incenso sobre ele, e ofereceram fogo estranho perante YHWH, o que não lhes ordenara. Então saiu fogo de diante de YHWH e os consumiu; e morreram perante YHWH."
Wayiq’rã/Levítico 10.1-2

Observe como a morte era um castigo, e nada se refere à um lugar de sofrimento eterno.

Então veja como fica muito mais coerente interpretarmos “she’ol” como “sepultura” do que a alternativa.

"As águas roubadas são doces, e o pão tomado às escondidas é agradável. Mas não sabem que ali estão os mortos; os seus convidados estão nas profundezas da sepultura[שְׁא֣וֹל - she’ol]."
Mish'lê/Provérbios 9.17-18

Percebemos assim que:

  • No Tanakh não existe um conceito de “inferno”, ou seja, um lugar de fogo e sofrimento eterno;
  • A morte era vista como um castigo pelo pecado e até mesmo uma punição vinda de YHWH;
  • She’ol é uma palavra que designa sepultura e que, quando trocamos a palavra “inferno” por “sepultura”, o entendimento fica muito melhor.

Fogo e enxofre

Uma das características a respeito do inferno é o fogo e enxofre (ou seja, um fogo muito intenso).

Podemos ver esta questão do fogo e enxofre em Bereshith/Gênesis.

"Então YHWH fez chover enxofre e fogo, de YHWH desde os céus, sobre Sodoma e Gomorra;"
Bereshith/Gênesis 19.24

O que vemos em Bereshith, é um julgamento. YHWH lança fogo e enxofre para destruir as cidades. O grande problema deste conceito é que, em todo o Tanakh não fala em lugar algum de um lugar onde arda eternamente fogo e enxofre.

As únicas referências à fogo e enxofre estão nas passagens onde YHWH faz o seu julgamento sobre as pessoas. Veja o exemplo a seguir:

"E contenderei com ele por meio da peste e do sangue; e uma chuva inundante, e grandes pedras de saraiva, fogo, e enxofre farei chover sobre ele, e sobre as suas tropas, e sobre os muitos povos que estiverem com ele."
Yechez’qel/Ezequiel 38.22

Aqui está evidentemente claro que se trata de um momento de punição, e não de um lugar de fogo eterno.

Como dito, sempre que temos “fogo e enxofre” pelo Tanakh, temos apenas uma referência a uma punição aqui na terra, e esta punição não se trata de um fogo eterno, mas sim, apenas de eliminar os pecadores.

O único texto do Tanakh em que pode trazer alguma dúvida é em Yesha’yãhu/Isaias, que veremos a seguir.

"E sairão, e verão os cadáveres dos homens que prevaricaram contra mim; porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará; e serão um horror a toda a carne."
Yeshayahu/Isaías 66.24

O contexto do pãsuq acima fala de uma nação ao qual YHWH reinará sobre todos os povos. Este local onde o “fogo não apagará” é aqui na terra mesmo e não um outro plano astral, conforme vemos no contexto.

Outro ponto importante, é que as pessoas estão mortas. E o texto não fala de almas, e sim, do verme que nunca morrerá. O que o texto realmente fala, não é um lugar de sofrimento eterno através do fogo, mas sim, da memória que vai ficar naqueles que presenciaram o julgamento de YHWH sobre os iníquos.

Gehinom

O gehinom - גיהנם é um conceito existente dentro do judaismo ortodoxo e também no chassídico ao qual esta palavra pode ser traduzido tanto como “inferno” como também “purgatório”.

O conceito de gehinom do judaísmo tem mais proximidade com o conceito de “purgatório” do catolicismo.

O judaísmo entende que o gehinom é um local para o aperfeiçoamento espiritual, onde, ao atingir um nível mais elevado, a alma pode adentrar o paraíso.

O grande problema deste conceito, é que este não tem nenhuma base no Tanakh. Todo o conceito está 100% apoiado no Talmud e além de tudo, chega a ser contrário ao que o Tanakh afirma a respeito de morte e punição.

O que podemos encontrar no Tanakh a respeito do gehinom é apenas visto em Yehoshua/Josué 15.8

"E este termo sobe pelo vale do filho de Hinom, do lado sul dos Yevusi/jebuseus (esta é Yerushalayim/Jerusalém) e sobe este termo até ao cume do monte que está diante do vale de Hinom[gehinom] para o ocidente, que está no fim do vale dos refains do lado do norte."
Yehoshua/Josué 15.8

Em Yehoshua vemos que גי־הנם - Ge-hinom que foi traduzido como “vale de Hinom”, é um local dado a fim de orientação e não um local onde os mortos vão elevar seu “nível espiritual”. Ou seja, este conceito não tem base bíblica alguma e o que vemos em Yehoshua não tem nada a ver com o conceito do judaísmo.

Conclusão

Percebemos por este artigo que pelo Tanakh, a idéia de um local onde as almas das pessoas se vão para passar por um sofrimento eterno não existe, e que o termo utilizado no Hebraico (she’ol) é na verdade um termo que designa a sepultura ou cova.

Também vimos que não existe um local onde arde fogo e enxofre eternamente, mas que este termo é utilizado para designar a intensidade ao qual a punição vinda de HaShem se dará àqueles que não vivem os seus preceitos.

E por fim, o termo gehinom oriundo do judaísmo está baseado em tradições alheias ao Tanakh. Deste modo, o Tanakh não fala nada a respeito deste local, do mesmo modo em que tais tradições o dizem.

Material produzido por: Edenyah ben Adam
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